terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Seja inadequado, porque não se adequar a uma sociedade doente é uma virtude

Por Erick Morais


A vida contemporânea cheia de regras e adestramento fez com que houvesse uma padronização completa das pessoas, de tal maneira que todos se comportam do mesmo modo, falam das mesmas coisas, se vestem mais ou menos do mesmo jeito, possuem as mesmas ambições, compartilham dos mesmos sonhos, etc. Ou seja, as particularidades, as idiossincrasias, aquilo que os indivíduos possuem de único, inexistem diante de um mundo tão pragmático e controlado.

Vivemos engaiolados, tendo sempre que seguir o padrão, que se encaixar em normas pré-determinadas, como se fôssemos todos iguais. Sendo assim, a vida acaba se transformando em uma grande linha de produção, em que todos têm que fazer as mesmas coisas, ao mesmo tempo e no mesmo ritmo, de modo a tornar todos iguais, sem qualquer peculiaridade que possa definir um indivíduo de outro e, por conseguinte, torná-lo especial em relação aos demais.

Somos enjaulados em vidas superficiais e nos tornamos seres superficiais, totalmente desinteressantes, inclusive, para nós mesmos. Sempre conversamos sobre as mesmas coisas com quer que seja, ouvindo respostas programadas pelo padrão, o qual nos torna seres adequados à vida em sociedade.

Entretanto, para que serve uma adequação que transforma todos em um exército de pessoas completamente iguais e chatas, que procuram sucesso econômico, enquanto suas vidas mergulham em depressões?

Qual o sentido de adequar-se a uma sociedade que mata sonhos, porque eles simplesmente não se encaixam no padrão? Uma sociedade que prefere teatralizar a felicidade a permitir que cada um encontre as suas próprias felicidades. Uma sociedade que possui a obrigação de sorrir o tempo inteiro, porque não se pode jamais demonstrar fraqueza. Uma sociedade que retira a inteligência das perguntas, para que nos contentemos com respostas rasas. Então, por que se adequar?

Os nossos cobertores já estão ensopados com os nossos choros durante a madrugada. O choro silencioso para que ninguém saiba o quanto estamos sofrendo. Para manter a farsa de que estamos felizes. Para fazer com que mentiras soem como verdade, enquanto, na verdade, não temos sequer vontade de levantar das nossas camas.

O pior de tudo isso é que preferimos vidas de silencioso desespero a romper com as amarras que nos aprisionam e nos distanciam daquilo que grita dentro de nós, esperando aflitamente que o escutemos, a fim de que sejamos nós mesmos pelo menos uma vez na vida sem a preocupação de agradar aos outros.

Somos uma geração com medo de assumir as rédeas das próprias vidas. E, assim, temos permitido que outros sejam protagonistas destas. É preciso coragem para retomá-las e viver segundo aquilo que arde dentro de nós, mesmo que sejamos vistos como loucos, pois só assim conseguiremos sair das depressões que nos encontramos. É preciso sacudir as gaiolas, já que, como diz Alain de Botton: “As pessoas só ficam realmente interessantes quando começam a sacudir as grades de suas gaiolas”. E, sobretudo, é preciso ser inadequado, porque não se adequar a uma sociedade doente é uma virtude.

Erick Morais

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O maligno círculo vicioso de pseudo necessidades

Cabana de Palha, Praia de Moreré, ilha de Boipeba, 7 de fevereiro de 2017

Estamos, eu Dengo, e a minha amorosa esposa, Paulinha, há 4 dias hospedados em uma cabana de palha, no mato sem portas nem janelas, bem próxima à praia de Moreré. Em um vilarejo bem pequeno onde todos se conhecem e não há violência, barulho, correria nem poluição. Estamos tendo uma experiência por demais enriquecedora e agradável. Estamos dormindo escutando as cigarras, pássaros e o barulho do mar. Estava com medo do calor à noite, mas está muito agradável, durmo melhor que no ar condicionado do nosso lar na Pituba. A cabana chega até a ser afrodisíaca! Minha pobre esposa que o diga… tadinha. Aqui percebi de forma mais evidente o quanto o sociedade humana está toda cagada.

Para nos isolar um pouco da violência criamos paredes de alvenaria e para isso precisamos inventar o ar condicionado;

Para a energia do ar condicionado, queimamos combustíveis fósseis e alagamos grandes áreas com comunidades, fauna e flora;

Geramos poluição e precisamos criar o repelente para nos proteger dos mosquitos atraídos pelos esgotos;

Nos agrupamos em comunidades para nos beneficiarmos mutualmente e acabamos fugindo da interação humana. Times de futebol, nível de escolaridade e de grana, opção sexual, religiões, partidos políticos, cor da pele, muitas vezes matando uns outro por execrarmos as diferenças. Se não nos toleramos, nem nos respeitamos para que nos juntarmos em grandes populações? Que sentido isso faz?

Inventaram que devemos ter vergonha do nosso próprio corpo e dai surgiu a industria têxtil, a futilidade da moda e o trabalho escravo da M. Officer, Renner e coleguinhas;

Embutiram na nossa mente a falsa ideia que precisamos ser melhores que os outros. Separaram o mundo entre vencedores e perdedores. Que maravilha perceber que os supostos perdedores levam uma vida com mais qualidade que os supostos vencedores;

Essa busca pelo “status social” criou a desigualdade social, violência, e prisões com super lotação e rebeliões;

Só lembrando que foi o medo da violência que nos trancou nas paredes de alvenaria...

Nos imputam culpa e medo em expressar sentimentos e emoções. Assim vamos plantando uma bomba relógio de sentimentos reprimidos.

“Não beije em público, sexo é coisa feia, não reclame do trabalho, dançar e chorar é coisa de mulher, você é loco de viver de arte? Vá procurar um emprego de verdade!”

E assim, ficando reféns dos nossos sentimentos. Para fugir deles tomamos calmantes e vamos para psicólogos. Consumindo drogas e metralhamos pessoas em cinemas e escolas para relaxar, só para relaxar. De uma tensão que não deveria existir se tivesse tido vazão ao invés de repressão.

Fomos feitos para apreciar o Muito. O muito dinheiro, muitas mulheres, muita comida e bebida, muito orgulho e poder;

Eu também já fui vítima, e ainda sou, de algumas das pseudo necessidades que nos são transmitidas por esta sociedade doentia. Aos poucos estou acordando e me libertando.

Percebo que a beleza da vida está nos Poucos. Pouco impacto ambiental, poucos bons amigos, pouco estresse, pouca ansiedade, pouca tecnologia, poucas necessidades e poucos bens.

Pare agora e avalie se as premissas da sua vida fazem sentido, pois as minhas não faziam.

Está na hora de percebermos que estamos nadando em um grande mar de merda e tentar sair dele! Esta merda já tá fedida demais!